quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Na atividade!

Para quem está dando um olhadinha no blog, algumas rapidinhas:
- a filmagem do último dia do projeto Do Morro ao Asfalto na Barragem Santa Lúcia, dia 07 de novembro, garantiu momentos realmente bonitos para o Samba da Minha Serra, graças à filmagem de Carolina Canguçu. Estou escolhendo algumas imagens para postar aqui no muiraquitã;
- dia 04 de dezembro próximo (sexta) a Velha Guarda do Samba de BH estará cantando em um evento promovido pelo Centro Cultural da UFMG (gestão da Rita Gusmão que, infelizmente, estará se despedindo).

A noite de sexta, mais do que um show, será um momento de debate sobre a relação do samba com temas como religião, carnaval e história. Os debatedores do evento serão: Carlos Felipe (falará sobre samba e religião), Acir Antão (história do samba no Brasil), Marcos Menezes Maia (história do samba em Belo Horizonte) e mais um cidadão, ainda não confirmado, que falará sobre samba e carnaval. A mediação do debate será do dançarino Rui Moreira que também falará sobre a relação do corpo com os temas abordados;

- por último, alguns componentes da Velha Guarda do Samba de Belo Horizonte estão participando de um projeto na casa noturna UZINA, no Sion, todos os domingos.
Em próximas postagens entrarei em detalhes sobre estes três momentos do samba de BH.
FOTOS: Netun Lima
Abraços!

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Pensando fontes históricas, músicas, imagens em movimento e ouvindo o muqueca de siri

Vamos continuar com a série de textos sobre as diferenças e semelhanças entre a pesquisa para documentário e a pesquisa eminentemente histórica – aquela feita por historiadores para trabalhos com o necessário rigor acadêmico. No post de hoje vou me ater a este último tipo de pesquisa. Em textos posteriores comentarei a pesquisa voltada para projetos de documentários que não tenham, necessariamente, a preocupação acadêmica. Relembro aos caros leitores o caráter quase experimental destes textos, caráter de anotações mesmo.
Sabemos que o Samba da Minha Serra terá fontes orais, escritas, fotográficas, musicais e audiovisuais. Hoje comentarei sobre fontes músicas e audiovisuais - vídeo, cinema etc -, como dito, na visão mais acadêmica, ok?
Ou melhor, vou passar a palavra para historiadores experientes e que já trabalham especialmente com este tipo de fonte, com este tipo de reflexão.
Cito abaixo o texto de Marcos Napolitano - professor do Departamento de História da USP - A História depois do papel que se encontra no livro "Fontes Históricas", editora Contexto, onde ele discorre sobre o trabalho com as fontes audiovisuais e musicais no espaço da pesquisa histórica.
Vale ressaltar que ainda hoje, entre alguns historiadores, existe uma visão que prioriza as fontes escritas como as mais confiáveis e que relegam as fontes audiovisuais a um papel apenas ilustrativo. Napolitano, em sentido oposto, chama a atenção para a necessidade de desenvolvermos um debate metodológico também sobre o uso das fontes audiovisuais.
Napolitano com a palavra:
"Nossa perspectiva aponta para um conjunto de possibilidades metodológicas pautadas por uma abordagem freqüentemente enfatizada por historiadores especialistas em fontes de natureza não-escrita: a necessidade de articular a linguagem técnico-estética das fontes audiovisuais e musicais (ou seja, seus códigos internos de funcionamento) e as representações da realidade histórica ou social nela contidas (ou seja, o seu 'conteúdo' narrativo propriamente dito). Se essa é uma tendência cada vez mais forte entre os historiadores, que vêm questionando a transparência dos documentos, mesmo os documentos escritos, tradicionalmente considerados 'objetivos' e diretos, para o caso dos documentos de natureza audiovisual ou musical, tal abordagem deve ser mais cuidadosa ainda, pois os códigos de funcionamento de sua linguagem não são tão acessíveis ao leigo quanto parece, exigindo certa formação técnica. Mesmo que o historiador mantenha sua identidade disciplinar e não queira se converter em comunicólogo, musicólogo ou crítico de cinema, ele não pode desconsiderar a especificidade técnica de linguagem, os suportes tecnológicos e os gêneros narrativos que se insinuam nos documento audiovisuais, sob pena de enviesar a análise."
Marcos Napolitano chama atenção para as decodificações necessárias para o trabalho do historiador com este tipo de fonte. Ressalta a decodificação de natureza técnico-estética, que visa responder a pergunta "quais os mecanismos formais específicos mobilizados pela linguagem cinematográfica, televisual ou musical?" e a decodificação de natureza representacional, que se refere a um outro questionamento: "quais os eventos, personagens e processos históricos nela representados?" Napolitano continua “Como em toda operação historiográfica, crítica externa e crítica interna, análise e síntese, devem estar devidamente articuladas. Nesse sentido, o uso de fontes audiovisuais e musicais pelo historiador pode ir além da 'ilustração' do contexto ou do 'complemento soft' de outras fontes mais 'objetivas' (escritas ou iconográficas), revelando-se uma possibilidade a mais de trabalho historiográfico.” Para ele, as duas decodificações não devem ser feitas em momentos distintos, mas no decorrer mesmo da pesquisa, no ato de analisar a fonte audiovisual ou musical, no momento em que estabelecemos a relação com as fontes e destas com o contexto que as cercam, como comentei no último post.

Uma pausa nessa discussão acadêmica, né pessoal? Se você conseguiu chegar até aqui, sugiro ouvir o Muqueca de Siri (samba web rádio) ai ao lado para descontrairmos da leitura às vezes um tanto árida para quem não é da área. Antes de ouvir o programa 92, o deste mes de novembro, vá no anterior, programa 91, atraves dos links samba web radio - podcast ou muquecadesiri.multiply.com (Arquivos com 60 programas anteriores). Ouça o número 91 com sambas "dos tempos do rádio" que vão de 1916 até 1968. Um excelente exemplo de acesso a documentos históricos musicais nos tempos de web. Tá lá, é só ouvir e aproveitar para conhecer o sítio do Sirí.
Do caramba esse programa, do caramba! Começa com nada mais nada menos que Dalva de Oliveira e Jaco do Bandolin... É mole? Mas, lá no finalzinho, no minuto 61:19, atentem para a letra do samba O Jornal da Morte de Miguel Gustavo, gravado em 1961 por Roberto Silva:
"Vejam só este jornal/ é o maior hospital/ porta-voz do bang-bang / e da polícia central/ tresloucada semi-nua/jogou-se do oitavo andar/ porque o noivo não comprava/ maconha pra ela fumar"(putz! tá na letra pessoal, é só ouvir no muqueca de siri.
Como diz o Cônrad no programa – e o Romário – “sinistro esse samba!”
De chofre, percebemos que em 1961 a parada já era pesada quanto às drogas, a violência e tal. Se alguém quiser pesquisar sobre o Miguel Gustavo ou o incansável intérprete Roberto Silva, pode começar pelo Dicionário Cravo Albim e partir pra sua dissertação acadêmica ou documentário.
MIGUEL GUSTAVO, SEGUIDO DOS DIZERES: "PARA VOCÊ, TUDO QUE QUERIAMOS PARA NÓS: UM NATAL COM MIGUEL GUSTAVO"
Brincadeiras a parte, vejam como circulamos, a partir de um texto acadêmico, pela web - ouvindo o muqueca de siri - e chegamos a um contexto social do início da década de 60, o que o Marcos Napolitano chama de "representações da realidade histórica ou social nela contidas". Agora, se atentarmos bem ao arranjo do O Jornal da Morte, percebemos que ele têm uma sofisticada sonoplastia com sons de sirenes de polícia, gritos etc para acentuar o efeito dramático da narrativa do samba. Arrisco dizer aqui que localizamos uma bem vinda interferência, ou influência, da linguagem cinematográfica no que ser refere as trilhas sonoras dos filmes policiais, mesmo que haja relações com as novelas de rádio do período. Interessante pensar nos suportes tecnológicos do período da composição do samba - início dos anos 60 - que contribuiram para o arranjo do "sinistro" samba de Miguel Gustavo, pois a técnica e seus suportes, sabemos, sempre influenciam qualitativamente na estética da obra de arte ou produto.

Bom! Vamos ouvir mais o muqueca de siri 91 que tá demais - prá variar! Grande Conrad, parabéns pelo programa. Mas o único defeito do programa é ser rubro-negro. Híííí! Mas tudo bem, tudo bem, tudo azul!
Até o próximo post.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Do morro ao asfalto

Ao se pesquisar para um documentário - falo de pesquisa histórica propriamente dita - além de se ter a oportunidade de apurar mais o nosso trato com as fontes históricas, percebe-se a complexidade da relação que as fontes mantêm entre si e com os atores que participam das práticas sociais em que as fontes são criadas. Quando refiro-me às fontes históricas de um documentário sobre samba, estou pensando em matérias de jornais, depoimentos orais em gravador ou vídeo, imagens em vídeos ou filmes, materiais de divulgação de eventos (cartazes, panfletos etc) e fotografias. Simplificando: por exemplo, este flyer ao lado, do projeto Do morro ao asfalto, mais do que um instrumento de divulgação, para mim, pesquisador, é uma fonte histórica; assim como serão fontes históricas orais - e visuais - os registros em vídeo dos depoimentos para o documentário Samba da Minha Serra daqueles que participam do referido projeto. Arriscando mais um pouco, acredito que matérias de televisão, jornais ou rádio sobre o evento também se tornarão fontes históricas. E tudo relacionado entre sí: panfletos de divulgação, depoimentos orais, registros de reportagens e, o motivo de tudo: pessoas se relacionando.
Esta postagem, despretenciosamente, apenas sugere levantar o tema e registrar para mim mesmo certas idéias que surgem na feitura do documentário.
Mas para entrar no quotidiano da História - essa mesma com H maiúsculo - passo agora a escrever diretamente sobre o projeto que dá título a este texto:
Já marcante na recente história do samba de Belo Horizonte, o projeto Do morro ao asfalto não poderá ficar de fora da pesquisa do Samba da Minha Serra. O primeiro dia, agora 10 do 10, terá a presença de Toninho Geraes, entre outros.


As datas e locais do projeto este ano:
10/10 - Acaba Mundo
17/10 - Morro das Pedras
24/10 - Alto Vera Cruz
31/10 - Serra
07/11 - Barragem Santa Lúcia
Muito, muito bom!

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

O bom filho à casa torna


O título dessa postagem não se refere ao filme de Malcolm D. Lee (O bom filho à casa torna, 2008) mas ao retorno das atividades do muiraquitã.
Da última postagem até este 24 de setembro, muita coisa aconteceu: fui contagiado pela roda de samba do Projeto Eu Canto Samba lá no quintal do Serginho Divina Luz, onde ouvi composições da melhor qualidade, feitas pelo próprio pessoal da roda; voltei a ajudar o trabalho da Velha Guarda do Samba de Belo Horizonte que está voltando aos palcos da cidade com shows no MATRIZ ( ver panfleto acima) e na quadra da Escola de Samba Cidade Jardim; alegrei-me com o blog do Zu Moreira, o Sala de Espera (http://www.otempo.com.br/blogs/?IdBlog=12) e estou dando aulas em escolas públicas da rede estadual de ensino (punk!).
Mas vamos ao nosso documentário Samba da Minha Serra:
1. Sobre a pesquisa: conheci um senhor de 70 anos que tem muitas informações sobre o Popó(fundador de uma das primeiras escolas de samba de Belo Horizonte, a E. de Samba Pedreira Unidada de 1938). Essa descoberta abriu uma nova frente de pesquisa, fundamental, pois Popó é personagem decisivo na história do samba de BH;
3. ainda sobre a pesquisa: conheci o pessoal da atual diretoria da Escola de Samba Cidade Jardim que, de maneira elegante e solícita, se colocou à disposição para ajudar no documentário. Um pessoal corajoso que enfrentou o poder público municipal na luta pela manutenção da única quadra de escola de samba que existe em BH (ver foto acima). E venceram! São lutadores, herdeiros de uma estirpe de sambistas que historicamente lutam não apenas pelo samba, mas também por uma sociedade mais justa;
3. sobre a roda de samba: será no quintal do Serginho Divina Luz, lá é indescritível.
Um abraço a todos, prazer reve-los.
PS: quem me inspirou o título dessa postagem não foi o filme de Malcolm D. Lee, mas o Gervásio Horta que, elegantemente, respondeu apenas com a frase O BOM FILHO À CASA TORNA a um e-mail no qual eu me desculpava pelo "sumiço". Um prazer ter amigos assim!

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Circulando na cidade para escolher o local da Roda

Estamos escolhendo o local para a roda de samba do Samba da Minha Serra. Fomos ao Memorial do Samba no bairro São Paulo, antigo Curral do Samba, para conferir o local. Além de ser uma referência para sambistas da cidade, tem a vantagem de ser um local fechado e coberto. Isto pensando em chuvas, cada vez mais imprevistas.

Esta semana vamos dar uma conferida no quintal do Serginho Divina Luz, no bairro São Marcos. Onde toda tarde de domingo acontece uma roda de samba com sambistas de várias idades, cores, tradições e gerações. O contato com o Serginho Divina Luz conseguimos atraves de Marina Pinto, cantora ligadíssima na tradição do samba de Belo Horizonte.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Em breve














Caros amigos e amigas,
Aguardem a postagem, já prometida anteriormente, sobre a roda de samba que realizaremos para o Samba da Minha Serra.
Também trataremos sobre as pesquisas feitas no Abílio Barreto, no Arquivo Público da Cidade de Belo Horizonte, no CRAV e na Hemeroteca Pública.
Um grande abraço.
(FOTO: Coleção Arquivo José Góes - Arquivo Público da Cidade de Belo Horizonte)

terça-feira, 17 de março de 2009

Entre os muros da escola


É possível que nessa semana seja confirmada a data da roda de samba do Samba da Minha Serra. Torço para que seja no antigo Curral do Samba, hoje o Memorial do Samba lá no bairro São Paulo, um lugar já referência entre os sambistas.
Mas esta decisão dependerá da visita que a equipe do documentário fará ao local. Temos que conferir a luz do lugar, os espaços e o próprio "cenário" do Memorial...
Além destas questões é importante pensar a metodologia de realização da roda, das entrevistas e da própria filmagem do evento. Evento que será um encontro provocado em função do documentário. Diante disso, uma preocupação é como evitar momentos falsos e formais durante a gravação. Como um dia disse o documentarista Eduardo Coutinho, o diretor de um documentário situa-se em um lugar de "instabilidade". Ainda mais quando a câmera, ao aparecer nas cenas, passa a ser um dos "personagens", o que provavelmente acontecerá na roda de samba do Samba da Minha Serra, onde usaremos duas câmeras.
Enquanto penso a questão, é interessante comentar um um belo filme frances que está em exibição nas salas de cinema da cidade: Entre os muros da escola, longa-metragem de Laurent Cantet. Narra o dia-a-dia no interior de uma escola pública da periferia de Paris, ambiente onde convivem jovens de diversas etnias ainda em fase de adaptação uns com os outros e com a própria França de Sarkozy.
É um filme ancorado na realidade não apenas pelo tema, mas também pelo elenco jovem que é composto por estudantes secundários de uma escola da periferia de Paris. O diretor Laurent Cantet, respondendo a uma pergunta no site G1 nega que por isso seja uma espécie de Big Brother colegial. "Não, acho que não. Tudo ali foi escrito, eles estão atuando. Toda a evolução dos personagens e situações foi planejada. Havia espaço para bastante improvisação, mas tudo partia de um roteiro. O que a gente tentou fazer foi recriar uma impressão de realidade."
O filme, para mim, é uma dinâmica visão do mundo globalizado e midiatizado, da continuidade das injustiças sociais e da maneira, às vezes cega às vezes sábia, dos pobres do mundo lidarem com a realidade. Além disso a obra tras uma oportunidade de pensar despretenciosamente o "como fazer" uma locação provocada e produzida para um documentário, gênero que se propõe mais real que a ficção.
Diante disso, como fazer com que na roda de samba, as pessoas por alguns momentos esqueçam que existem câmeras e microfones ao seu rodor? E também - na postura oposta - como em outros momentos proceder as filmagens para que as pessoas filmadas, mesmo conscientes da presença de câmeras, venham a interagir e dialogar com o momento da filmagem?
Acho que não é querer muito, é querer flagrar as realidades dos momentos provocados e tentar compor tudo isso como elementos do mesmo processo sem fim, o processo da convivência, dos registros de todo tipo e da comunicação entre pessoas.
Mas prometo não complicar... e continuar a conversa até o ultimo momento da edição do filme.
Veja o Entre muros no USIMINAS Belas Artes Cinema R. Gonçalves Dias, 1581 e no USINA Rua dos Aimorés, 2424.
Anda, vá ver...
[foto: divulgação]