
Vamos continuar com a série de textos sobre as diferenças e semelhanças entre a pesquisa para documentário e a pesquisa eminentemente histórica – aquela feita por historiadores para trabalhos com o necessário rigor acadêmico. No
post de hoje vou me ater a este último tipo de pesquisa. Em textos posteriores comentarei a pesquisa voltada para projetos de documentários que não tenham, necessariamente, a preocupação acadêmica. Relembro aos caros leitores o caráter quase experimental destes textos, caráter de anotações mesmo.
Sabemos que o
Samba da Minha Serra terá fontes orais, escritas, fotográficas, musicais e audiovisuais. Hoje comentarei sobre fontes músicas e audiovisuais - vídeo, cinema etc -, como dito, na visão mais acadêmica, ok?
Ou melhor, vou passar a palavra para historiadores experientes e que já trabalham especialmente com este tipo de fonte, com este tipo de reflexão.
Cito abaixo o texto de Marcos Napolitano - professor do Departamento de História da USP -
A História depois do papel que se encontra no livro
"Fontes Históricas", editora Contexto, onde ele discorre sobre o trabalho com as fontes audiovisuais e musicais no espaço da pesquisa histórica.
Vale ressaltar que ainda hoje, entre alguns historiadores, existe uma visão que prioriza as fontes escritas como as mais confiáveis e que relegam as fontes audiovisuais a um papel apenas ilustrativo. Napolitano, em sentido oposto, chama a atenção para a necessidade de desenvolvermos um debate metodológico também sobre o uso das fontes audiovisuais.
Napolitano com a palavra:
"Nossa perspectiva aponta para um conjunto de possibilidades metodológicas pautadas por uma abordagem freqüentemente enfatizada por historiadores especialistas em fontes de natureza não-escrita: a necessidade de articular a linguagem técnico-estética das fontes audiovisuais e musicais (ou seja, seus códigos internos de funcionamento) e as representações da realidade histórica ou social nela contidas (ou seja, o seu 'conteúdo' narrativo propriamente dito). Se essa é uma tendência cada vez mais forte entre os historiadores, que vêm questionando a transparência dos documentos, mesmo os documentos escritos, tradicionalmente considerados 'objetivos' e diretos, para o caso dos documentos de natureza audiovisual ou musical, tal abordagem deve ser mais cuidadosa ainda, pois os códigos de funcionamento de sua linguagem não são tão acessíveis ao leigo quanto parece, exigindo certa formação técnica. Mesmo que o historiador mantenha sua identidade disciplinar e não queira se converter em comunicólogo, musicólogo ou crítico de cinema, ele não pode desconsiderar a especificidade técnica de linguagem, os suportes tecnológicos e os gêneros narrativos que se insinuam nos documento audiovisuais, sob pena de enviesar a análise."Marcos Napolitano chama atenção para as decodificações necessárias para o trabalho do historiador com este tipo de fonte. Ressalta a decodificação de natureza técnico-estética, que visa responder a pergunta
"quais os mecanismos formais específicos mobilizados pela linguagem cinematográfica, televisual ou musical?" e a decodificação de natureza representacional, que se refere a um outro questionamento:
"quais os eventos, personagens e processos históricos nela representados?" Napolitano continua
“Como em toda operação historiográfica, crítica externa e crítica interna, análise e síntese, devem estar devidamente articuladas. Nesse sentido, o uso de fontes audiovisuais e musicais pelo historiador pode ir além da 'ilustração' do contexto ou do 'complemento soft' de outras fontes mais 'objetivas' (escritas ou iconográficas), revelando-se uma possibilidade a mais de trabalho historiográfico.” Para ele, as duas decodificações não devem ser feitas em momentos distintos, mas no decorrer mesmo da pesquisa, no ato de analisar a fonte audiovisual ou musical, no momento em que estabelecemos a relação com as fontes e destas com o contexto que as cercam, como comentei no último
post.

Uma pausa nessa discussão acadêmica, né pessoal? Se você conseguiu chegar até aqui, sugiro ouvir o
Muqueca de Siri (samba web rádio) ai ao lado para descontrairmos da leitura às vezes um tanto árida para quem não é da área. Antes de ouvir o programa 92, o deste mes de novembro, vá no anterior, programa 91, atraves dos links
samba web radio - podcast ou
muquecadesiri.multiply.com (Arquivos com 60 programas anteriores). Ouça o número 91 com sambas
"dos tempos do rádio" que vão de 1916 até 1968. Um excelente exemplo de acesso a documentos históricos musicais nos tempos de web. Tá lá, é só ouvir e aproveitar para conhecer o sítio do Sirí.
Do caramba esse programa, do caramba! Começa com nada mais nada menos que Dalva de Oliveira e Jaco do Bandolin... É mole? Mas, lá no finalzinho, no minuto 61:19, atentem para a letra do samba
O Jornal da Morte de Miguel Gustavo, gravado em 1961 por Roberto Silva:
"Vejam só este jornal/ é o maior hospital/ porta-voz do bang-bang / e da polícia central/ tresloucada semi-nua/jogou-se do oitavo andar/ porque o noivo não comprava/ maconha pra ela fumar"(putz! tá na letra pessoal, é só ouvir no
muqueca de siri.
Como diz o Cônrad no programa – e o Romário –
“sinistro esse samba!”De chofre, percebemos que em 1961 a parada já era pesada quanto às drogas, a violência e tal. Se alguém quiser pesquisar sobre o Miguel Gustavo ou o incansável intérprete Roberto Silva, pode começar pelo Dicionário Cravo Albim e partir pra sua dissertação acadêmica ou documentário.

MIGUEL GUSTAVO, SEGUIDO DOS DIZERES:
"PARA VOCÊ, TUDO QUE QUERIAMOS PARA NÓS: UM NATAL COM MIGUEL GUSTAVO" Brincadeiras a parte, vejam como circulamos, a partir de um texto acadêmico, pela web - ouvindo o
muqueca de siri - e chegamos a um contexto social do início da década de 60, o que o Marcos Napolitano chama de
"representações da realidade histórica ou social nela contidas". Agora, se atentarmos bem ao arranjo do
O Jornal da Morte, percebemos que ele têm uma sofisticada sonoplastia com sons de sirenes de polícia, gritos etc para acentuar o efeito dramático da narrativa do samba. Arrisco dizer aqui que localizamos uma bem vinda interferência, ou influência, da linguagem cinematográfica no que ser refere as trilhas sonoras dos filmes policiais, mesmo que haja relações com as novelas de rádio do período. Interessante pensar nos suportes tecnológicos do período da composição do samba - início dos anos 60 - que contribuiram para o arranjo do "sinistro" samba de Miguel Gustavo, pois a técnica e seus suportes, sabemos, sempre influenciam qualitativamente na estética da obra de arte ou produto.
Bom! Vamos ouvir mais o
muqueca de siri 91 que tá demais - prá variar! Grande Conrad, parabéns pelo programa. Mas o único defeito do programa é ser rubro-negro. Híííí! Mas tudo bem, tudo bem, tudo azul!
Até o próximo
post.